domingo, 14 de dezembro de 2008

Professora-menina

Ela só tinha 7 anos, quando a vida decidiu se mostrar dura, andava mais de 15 km se quisesse estudar, e nem era estimulada pra isso, muito pelo contrário, escutava críticas e piadas de sua vó por fazer a tarefa de casa no escuro, pois ainda morava sem acesso a qualquer tipo de energia. Seu bicho de estimação era um macaco, suas bonecas feitas com espiga de milho prestavam muita atenção às aulas ministradas pela professora-menina...pelo menos não reclamavam! Seus irmãos menores, na época 4, também eram figurantes para seus sonhos, já esses tinham fome. Na casa de barro coberta com telhas, um luxo pra região, ela sentia-se uma princesa, no seu quintal existiam igarapés, na sua varanda árvores frutíferas, ora brincando ora ajudando a mãe, linda sonhava com uma vida melhor.
Aos 9 pensou ter encontrado a melhor fase da sua vida, foi remanejada pra capital junto com 3 dos outros irmãos, mas não ficaram juntos, 4 tios foram escolhidos para apoiá-los, ali foi decidida a sorte de cada um. Passaram por muitas provações, a mais velha passava roupas, arrumava a casa e tomava conta dos primos mais novos, numa versão quase real da gata borralheira. Tinha algum tempo de sobra e aproveitava pra olhar pelos irmãos. Sofreram humilhações, sentiram mais fome e a professora-menina traçou sua meta. Iria ser alguém na vida pra suprir a carência dos que amava. Mais irmãos iam nascendo, junto com sua vontade de prosperar. Atravessou a adolescência na marra, a essa altura já sabia costurar sua própria roupa. Olhava os modelos da moda nas revistas e fazia igual, tornou-se uma linda mulher, de pernas bem torneadas e cabelos curtos, que na época identificava as mulheres independentes. Começou sua batalha de gente grande, seu sonho de menina tornou-se realidade, ela conheceu então as contrariedades da vida de professor, conseguiu alugar uma casa humilde na passagem Pará para acolher os irmãos. Aos 18 comprava ovos quebrados, eram mais baratos, sofriam mas já se animavam pois como todo bom paraense sabiam rir da sua própria desgraça. Entre redes entrelaçadas e chinelos espalhados no chão iam sobrevivendo, tiravam retrato no arraial, comiam açaí com charque e mergulhavam os pés na rua enlamaçada nos dias de chuva.
Aquele par de pernas começou a atrair olhares, era preciso ter cuidado, moça humilde sem malícia, arrimo de familia até que deu sorte. Encantou o moço estudado de familia fina e hábitos educados, com bom coração e ótimo caráter, gostava de assobiar toda vez que passava aquela saia pliçada da Escola Normal. Mas o moço fino era careta, desejava uma moça prendada, daquelas que fica em casa cuidando do seu lar, ela sentia-se tolida, impedida de alçar os vôos tão sonhados, e brigou pelo que possui, até pulou por cima do carro que a impedia de sair pra trabalhar. Os irmãos começaram a incomodar, já eram adultos mas se acomodaram sob os cuidados da irmã. Ainda vivia pelas escolas, ensinou crianças, adultos e pessoas especiais. A parceria com o bom moço careta lhe rendeu dois filhos bacanas, e uma vida de contradições, sempre procurando o equilíbrio entre os bons costumes e sua origem interiorana. Acho que nunca relaxou. Marece essa moça um belo final feliz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário